A arquitetura Moderna no Espírito Santo

TRAJETÓRIA DA ARQUITETURA CAPIXABA

A Arquitetura Moderna chega ao Espírito Santo no início da década de 50 e sua consolidação se deu principalmente através da ação do governo, empenhado no desenvolvimento e modernização do estado e da atuação de arquitetos de formação Moderna. Como não havia curso de arquitetura no Espírito Santo os primeiros arquitetos que vieram para Vitória eram todos formados em outros estados, principalmente no Rio de Janeiro, e sua formação Moderna foi possível graças aos vanguardistas Modernos que atuaram de maneira plena, não só projetando, mas também escrevendo, protestando e lecionando.

O desenvolvimento do Espírito Santo se dá a partir do início do século XX, através dos recursos gerados pela produção de café, mas somente mais  tarde as transforma- ções no espaço urbano de Vitória se intensificam, principalmente nos governos de Muniz Freire (1892-96), Jerônimo Monteiro (1908-12) e Florentino Avidos (1924-28).

Na década de 20, quando em São Paulo já aconteciam as primeiras grandes manifestações Modernistas, como a Semana de Arte de 22, em Vitória o estilo arquitetônico dominante era o ecletismo. Desde o governo de Jerônimo Monteiro, quando foram realizadas várias obras de melhoria na cidade graças à prosperidade na produção de café, utilizou-se estilos europeus na arquitetura, como é o caso do Parque Moscoso. Nesta época tornou-se comum a remodelação de fachadas coloniais para o estilo eclético.

EDIFICAÇÂO NA PRAÇA COSTA PEREIRA. Exemplo de fachada colonial reformada no estilo eclético.

EDIFICAÇÃO NA PRAÇA COSTA PEREIRA. Exemplo de fachada colonial reformada no estilo eclético.

A crise de 1929 afetou a rentabilidade da produção cafeeira,     base da economia capixaba, levando o Estado a diversificar a economia e incentivar a industrialização como alternativas para o desenvolvimento do Espírito Santo. Em 1930, com a instauração do autoritário e desenvolvimentista regime político de Getúlio Vargas, o Estado Novo, a busca pela modernização torna-se quase uma obssessão nacional. No Espírito Santo, o interventor João Punaro Bley (1940-43) empreendeu diversas obras como hospitais, escolas, estradas e obras de renovação de praças e parques. A partir dos governos de Carlos Lindemberg (1947-50/1956-62) e Jones dos Santos Neves (1951-54) o crescimento econômico do estado passa a ser questão fundamental, levando-os a empenhar-se na realização de várias obras.

No período de 30 a 50 a arquitetura capixaba passou a caracterizar-se por composições geométricas verticalizadas, uso de recuos para  propiciar privacidade, ocupação de alinhamentos  e laterais, eliminação de ornamentos nas fachadas e utilização de novas tecnologias possibilitadas pelo advento da industrialização. No entanto, ao mesmo tempo em que se desprendia de determinados padrões clássicos, mesclavam-se a esta arquitetura elementos do ecletismo. A este estilo que caracterizou a transição da arquitetura eclética para a Moderna, chamou-se proto-Modernismo, que apresentava, entre outras características, fachadas com varandas arredondadas embutidas ou semi-embutidas – que definem as zonas noite e dia – base e corpo distinguidos e a concordância das quinas do edifício com o encontro formado pelos logradouros. Um exemplo é o Edifício Antenor Guimarães, construído em 1936, mesmo ano em que foi iniciado o edifício do MES -RJ.

Embora considerado marco da arquitetura Moderna brasileira, a realização de obras Modernistas ousadas no Rio de Janeiro, como o Ministério, se dava ainda de maneira pontual em sua época. Isto mostra que a defasagem de tempo entre a eclosão da arquitetura Moderna no Espírito Santo e nos berços do Modernismo no Brasil não é muito significativa. Considerando a década de 40 como aquela que marcou de fato a aceitação e popularização da arquitetura Moderna no país, cerca de dez anos mais tarde, as décadas de 50 e 60 caracterizariam o período de maior produção de arquitetura Moderna no Espírito Santo.

A CHEGADA DOS ARQUITETOS E A PRODUÇÃO MODERNA

Enquanto no Rio construía-se a realização mais ousada do Modernismo brasileiro da época, a nova sede do Ministério da Educação e Saúde, o Espírito Santo começava a  caminhar  rumo à nova arquitetura. No final da década de 40, levado pelo espírito de modernização que havia tomado o país desde a instauração do Estado Novo, Carlos Lindemberg convida o arquiteto Élio Vianna para trabalhar em  Vitória.

Posteriormente, no final  da  década de 40 e início de  50  chegam  outros arquitetos como Décio Thevernard, Marcello Vivácqua, Maria do Carmo Schwab, Dirceu Carneiro e outros, que passam a atuar no estado produzindo obras Modernas.

O arquiteto Décio Thevenard, graduado em Minas Gerais, dedi- cou-se bastante ao campo adminis- trativo, chegando até a ser prefeito de Vitória, em 1970. Não se têm muitas informações a respeito de sua produção arquitetônica. As duas obras mais conhecidas  deste arquiteto são um edifício  no  centro de Vitória e um conjunto de prédios na Av. César Hilal, o qual lembra os edifícios do Parque Guinle, no Rio de Janeiro, de Lúcio Costa, com seus elementos vazados nas fachadas.

CONJUNTO DE PRÉDIOS. Décio Thevenard. 1954.

CONJUNTO DE PRÉDIOS. Décio Thevenard. 1954.

O arquiteto carioca Marcello Vivácqua, formado no Rio de Janeiro, em 1951 vem para Vitória incentivado por Élio Vianna. Trabalhou na Secretaria de Viação e Obras Públicas (SVOPES) junto com Élio Vianna e Maria do Carmo Schwab. A primeira obra significativa de Marcello Vivácqua na cidade é o Edifício Ouro Verde, que expressa claramente sua inspiração nas curvas “sensuais” de Niemeyer. Destaca-se ainda entre seus projetos o primeiro plano para a Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), incluindo o atual Centro de Artes, de 1968 e o Centro de Educação Física, de 1970.

Página ao lado:   EDIFÍCIO OURO VERDE. Marcello Vivácqua. 1962.

EDIFÍCIO OURO VERDE. Marcello Vivácqua. 1962.

Dentre as obras de Marcello Vivácqua nota-se uma variação de estilo em determinados períodos, que parece refletir de certa  forma  os  acontecimentos do  momento  no  campo  da arquitetura. Vivácqua voltou a fazer arquitetura colonial quando esta ressurgiu como moda no Brasil, diferenciando assim sua produção da de arquitetos como Élio Vianna e Maria do Carmo Schwab, que mantiveram-se sempre fiéis à arquitetura Moderna.

O capixaba Dirceu Carneiro chega a Vitória na década de 50. Formado no Rio de Janeiro em 1956, destacam-se entre suas obras o prédio do DER – Departamento de Estradas e Rodagens, no qual prevalece a simplicidade na modulação do edifício, e o Restaurante Universitário da UFES, que já se encontra parcialmente descaracterizado após reformas.

EDIFÍCIO ÁLVARES CABRAL (esq.), 1952 E CENTRO DO COMÉRCIO DO CAFÉ, 1962. Élio Vianna.

EDIFÍCIO ÁLVARES CABRAL (esq.), 1952 E CENTRO DO COMÉRCIO DO CAFÉ, 1962. Élio Vianna.

Um dos arquitetos de maior destaque na arquitetura capixaba, Élio Vianna realizou diversas obras expressivas durante o governo de Jones dos Santos Neves. Entre elas estão: a sede da Legião Brasileira de Assistência (LBA-ES), o Edifício Álvares Cabral e o Jardim de Infância Maria Queiroz Lindemberg, de 1952, a Escola Irmã Maria Horta e o Colégio Estadual, de 1954.

Elementos da arquitetura Moderna presentes na arquitetura de Élio Vianna: venezianas e brises verticais. COLÉGIO ESTADUAL (esquerda) e ESCOLA POLITÉCNICA, ambos de 1954.

COLÉGIO ESTADUAL, Élio Vianna, 1954.

Elementos da arquitetura Moderna presentes na arquitetura de Élio Vianna: venezianas e brises verticais. COLÉGIO ESTADUAL (esquerda) e ESCOLA POLITÉCNICA, ambos de 1954.

Elementos da arquitetura Moderna presentes na arquitetura de Élio Vianna: brises verticais na  ESCOLA POLITÉCNICA, de 1954.

Realizou vários projetos de escolas, como a Escola de 1º Grau Liberato Sete em Caratoíra e a Escola de Engenharia Politécnica, além das já citadas. O interesse de Élio Vianna pela questão educacional levou-o a desenvolver teses sobre o assunto.

Em suas obras freqüentemente estão presentes elementos como brises verticais, venezianas e elementos vazados como o cobogó.

 

Outro nome de peso na arquitetura do estado é o de Maria do Carmo Schwab. Esta capixaba retornou a Vitória no ano seguinte à sua graduação em 1953. Acompanhou a evolução da arquitetura Moderna e de arquitetos como Lúcio Costa e Affonso Eduardo Reidy, vindo a trabalhar com este último como estagiária. Suas principais obras são na maioria casas e edifícios comerciais. Maria do Carmo participou de vários concursos, entre eles o  do Clube Libanês do Espírito Santo, de 1958, no qual tirou primeiro lugar, vindo a realizar uma de suas obras mais importantes.

Durante o período em que trabalhou na SVOPES realizou com Élio Vianna e Marcello Vivácqua diversos projetos de escolas, igrejas, prefeituras, jardins de infância e mercados. Em 1963 atuou na direção do Departamento de Planejamento e Obras da Universidade Federal do Espírito Santo e em 1966 passa a trabalhar como arquiteta da UFES. É nesta época que projeta o escritório de campo, apelidado por ela mesma de “Catetinho”. Realizou ainda para a UFES diversos projetos que não foram executados.

Pilotis no CLUBE LIBANÊS. Maria do Carmo Schwab. 1958.

Pilotis no CLUBE LIBANÊS. Maria do Carmo Schwab. 1958.

Maria do Carmo Schwab e Élio Vianna são os arquitetos que mais se destacaram no Espírito Santo, não só pela quantidade de obras realizadas mas também pela qualidade das mesmas.

O fato de terem atuado em cargos públicos resultou em uma maior liberdade no sentido das limitações econômicas,     principalmente para Élio Vianna, que realizou diversos projetos no governo de Jones dos Santos Neves, grande incentivador do desenvolvimento do estado e da arquitetura Moderna.

Tais obras expressam a fidelidade dos arquitetos para com a arquitetura Moderna, utilizando seu repertório através do emprego de brises verticais, venezianas, pilotis, estrutura independente, cobogós e elementos vazados, que adaptam-se à especificidade de cada obra na busca de qualidade.

É neste sentido que se torna evidente a convicção de Élio Vianna e Maria do Carmo Schwab acerca da arquitetura Moderna, chegando mesmo, segundo a própria Maria do Carmo, a optar, em determinados momentos, por abrir mão de certos trabalhos a ter que fazer uma arquitetura na qual não acreditava.

Como podemos perceber, a arquitetura Moderna foi introduzida aqui a partir destes arquitetos de formação acadêmica Moderna, que passaram a atuar em Vitória, juntamente com o incentivo do governo. Assim, o que se deu aqui estava longe de ser um “movimento” Moderno, tal como ocorreu nos grandes centros através da atuação das vanguarda. Nem era possível haver aqui um movimento, pois não havia um grupo de profissionais de arquitetura no estado até a chegada daqueles arquitetos.

Como um eco do Movimento Moderno chegou por aqui uma arquitetura Moderna, que na maioria das vezes não expressava plenamente os ideais daquele movimento. Trata-se de um moderno com características “diluídas”, pois foi posta em prática por arquitetos que vieram trabalhar em Vitória procurando aplicar em suas obras os princípios Modernos adquiridos em sua formação. Mas ao mesmo tempo em que tentavam utilizar o repertório Moderno, tinham que conciliar suas idéias com certas limitações econômicas e culturais.

Tudo isto, somado às posturas pessoais dos profissionais, resultaram em uma arquitetura que “adapta-se” às nossas possibilidades, traduzindo-se em formas que às vezes não apresentam características Modernas tão explícitas., sem no entanto comprometer a qualidade da arquitetura Moderna capixaba. Trata-se de obras de qualidade que apresentam traços únicos, cujas causas estão ligadas diretamente à história do estado, além de constituírem a base para se refletir sobre a nossa arquitetura atual.

Por fim, é importante alertar que, atualmente, diversas obras da arquitetura Moderna capixaba encontram-se muito descaracterizadas, como é o caso da residência Aécio Peixoto Bumachar (Avenida Desembargador Santos Neves), atual Banco Santos Neves – abandonadas ou foram demolidas, como ocorreu com a residência Otacílio José Coser (Praia da Costa), e com a residência Flamínio Sarlo Maia (Avenida Rio Branco), pondo em risco o acervo de obras Modernas do Espírito Santo.